Rui Almeida Paiva > quarto 26

Convidaram-me para ir dormir ao lado de casa, numa residencial. Quando estava prontinho para abrir a porta da rua, pus-me a pensar, o que ocorre muito raramente. Quanto muito, ao chegar ao meu lar, doce lar, sou tocado diariamente por uma ideia (é sempre a mesma, para não dar muito trabalho) – ESTOU PRONTO PARA NÃO FAZER RIGOROSAMENTE NADA.

Encontrava-me então, eu, como dizia, a sair de casa, para ir dormir mesmo ali ao lado, numa residencial, e logo aparece um pensamento intragável, daqueles de quem está a sair e não dos outros, relaxantes, de quem está a entrar no lar doce lar. Se aceito dormir ao lado de casa, pensei, as duas camas vão andar a morder os calcanhares uma da outra noite dentro, cidade fora, numa chinfrineira. Resultado: depois apanham-nas e vêm pedir satisfações. O senhor é o responsável por estas duas camas? E para não falar dos pesadelos, que os tenho de sobra. E de novo a baterem-me à porta. Apanhámos estes pesadelos a morderem-se violentamente, conhece-os? Conheço-os. Veja lá se dá conta do recado. Não estamos para andar toda a noite a entregar-lhe as suas duas camas e os seus pesadelos violentos.

Apetecia-me dar meia volta. Entrar de novo em casa e desistir. Depois não venhas com histórias de arrependimentos. Mergulhar no sofá, feito peixinho, e deixar-me pescar pelo meu pensamento de entrada: ESTOU PRONTO PARA NÃO FAZER RIGOROSAMENTE NADA.

Mas não podia dar meia volta. Compromissos são compromissos. Dei antes uma volta inteira, só para não contrariar totalmente o ócio.
Fiz-me ao caminho e já me arrependia de me ter feito ao caminho. Quase todas as noites produzem ruídos e luas. Os ruídos atingem-me de todos os lados, sem lhes conseguir alcançar a origem, especialmente à noite, quando o medo persiste. Mesmo assim, fico com a sensação de apenas ser possível contabilizar o espaço existente até à lua ou a distância das luas entre si. Sugeri, desta feita, calcular a distância da minha casa (onde diariamente adormeço dominado pela lua), até ao Largo do Intendente (onde deveria naquela noite adormecer dominado pela mesma lua oblíqua, provavelmente). Sem ninguém notar, começo a contar os passos. Só tens, no final da viagem, sugeri enquanto avançava, de substituir passos por quilómetros para evitares dormir ao lado de casa, numa residencial. Seguindo esta máquina de ampliação do espaço, em tudo idêntica à lupa, posso, afinal de contas, com sorte, pernoitar ainda hoje a dois ou três países de distância da minha morada. Entretanto fui atacado de surpresa por duas ou três lembranças fortes. Optei, para me defender, por executar um túnel. Era um túnel de superfície. Neste tipo de túneis avançamos com o intuito de passarmos por cima de certos obstáculos bem como para não perdermos muito tempo com os pensamentos

subterrâneos. Basta usarmo-nos das pernas como os Homens usam as pás quando abrem caminhos debaixo da terra. Fui escavando, em todo o caso, não na vertical, em profundidade, mas na horizontal, em profundidade.
Resumidamente, o meu túnel passou por estes sítios.

Passada 3 – Travessa de Santo António Passada 57 – Largo de Santo António da Sé. Passada 134 – Largo da Madalena
Passada 243 – Largo Adelino Amaro da Costa Passada 483 – Poço do Borratém
Passada 672 – fim do Martim Moniz
Passada 1108 – Largo do Intendente

Utilizando-me da lupa, contabilizo a superfície percorrida: 1108 quilómetros, mais coisa menos coisa. Satisfeito por me ter arremessado para tão longe, recordo-me do verso do poeta:

Passo de gigante em direção à certeza

Divirto-me, ainda, enquanto vou examinando o Largo do Intendente, a tentar adivinhar o país onde vim parar. Ora, se fiz 1108 quilómetros... Mas qual o sentido tomado? Só pontos da rosa-dos-ventos são trinta e dois e logo concluo: qualquer que tenha sido a direção escolhida, olhando à volta do Largo, tudo indica ter chegado a trinta e dois pontos do globo.

Curiosamente esta ideia tranquiliza-me. Quem me dera continuar, enfim, por muitas mais horas, às cavalitas da incerteza. Era como se me tivesse encontrado justamente no momento em que não sabia onde estava. De facto, em três tempos confirmei a posição da Residência do Largo, onde deveria pernoitar. Subo quarenta degraus e deito-me na cama do quarto 26. Há muito que não dormia assim. Um sono pesado, tranquilo.

Logo pela alvorada deixo-me levar até à casa de banho. És alguém neste piso, neste ponto do globo, a 1108 quilómetros de casa, penso. Depois começo a praticar o dia – hábito antigo. Normalmente no primeiro exercício matinal tenho o auxílio de uma máquina: o espelho. Dez minutos por dia.

Por que razão olhas o espelho tanto tempo antes de concertares a beleza?
Tens alguma necessidade em extorquir uma imagem antes de fugires?
Permaneço ao espelho com um olhar parado, ausente, quase morto, respeitando os critérios de execução do exercício matinal. Não existirão outros modos de marcares o teu ponto no globo?

Quietinho, esbracejo, assim, olhos nos olhos, mas estes pequenos desacertos na minha imagem são difíceis de suportar. Digo para o espelho: chegou o momento de me dedicar ao segundo túnel. Depois digo: andas a fazer um buraco, como bem sabes. Dez minutos diários há, sei lá...3, 4 anos. Dez minutos por dia a escavar. E continuo a tentar. O mais importante, penso, é sair daqui. E pressiono o indicador no espelho, deixando a marca do dedo algures junto a uma das pálpebras.

Findo o exercício matinal, decido sair do quarto 26. Verifico: somente se conseguir chegar às escadas poderei chegar à rua para chegar ao Largo. Consigo alcançar as escadas. Quarenta degraus quase verticais. Forço a porta da residência a abrir-se, empurrando para longe o meu centro – ponto do globo que por mero acidente acreditas ser teu. Diluis-te nos outros pontos: a mesquinha multidão continua a tentar, verificas, logo pela manhã, logo pelas oito da manhã. Deves achar que ao largares um ponto ali, na multidão, tornar-se-á fácil voltar a encontrá-lo. Lança-te na mesma.

No Largo estão, na esquina, quatro polícias. Não tenhas ilusões. Nem quatro polícias, numa esquina, te podem ajudar a descobrir onde ficam os locais do mundo exterior onde o perigo aponta para ti. Pergunto-lhes: quais os locais do mundo interior ameaçadores. Eles empurram a resposta para o Fernando. Trata tu desta ocorrência, e afastam-se. Fica o Fernando, o agente Fernando. Ele aponta para a Rua dos Anjos e suponho ter escutado da sua boca: «Aconselho-o a percorrer aquela rua com as mãos enfiadas nos bolsos». Depois oiço o agente Fernando, agora com clareza, numa voz rouca e cordial: «Só assim é seguro passar por ali.»

Pelo sim pelo não, de vez em quando deverás dar trabalho às pernas como se estas se encontrassem, de repente, na parte inferior de uma estátua. Do alto da estátua (no topo da tua cabeça, portanto), adivinhas uma manhã feliz.
Mas existe um homem nesta manhã feliz. Nada faz prever que esta manhã feliz pertence a um dia medonho porque dentro de seis minutos este homem será atingido. Agora ainda está a subir a Almirante Reis ocupando-se da sua garrafa de cerveja. Puxa o gatilho pela abertura fácil e esta dispara tal e qual foguete de artifício. O homem, cantando uivos, celebra. Os braços ao alto. A cerveja espumando pelo gargalo.

Espreito o início da Rua dos Anjos, seis minutos antes. É comprida e escura e lá ao longe, onde termina, vislumbra-se um pequeno retângulo luminoso e os pequenos carros aceleram e algumas pessoas pequenas atrasam a passada um pouco depois da hora para o que ainda lhes resta. Meto as mãos nos bolsos e avanço. Ouço o balançar de uma morna. Dois gatos atrevem-se, roçando-se numa parede quase intacta. Levadas pelos ombros, inclinadas, seguem quatro mochilas com meninos enfiados pelas alças, carregados pelo sono. Um homem, sentado num degrau, sabe o quanto é secreta a beleza – uma linda mulher abana as ancas em resposta às pernas que por sua vez respondem aos pés que por sua vez vão intercalando a dianteira da mulher. O homem fica atento ao ritmo marcado mas também regular das ancas. Segue-as, secretamente, a partir dos seus óculos escuros e dos seus óculos graduados estrategicamente arrumados à frente dos primeiros. De vez em quando as sirenes servem para anunciar

um nascimento (ou seja uma adição) e não um óbito (ou seja uma subtração), penso, e mantenho-me a contemplar os gatos a trabalharem a sedução. Encostam-se com alguma pressão às partes íntimas do edifício. Depois encostam-se, com alguma pressão, às partes íntimas da excitação. Outra sirene noutra rua aparece junto a este edifício para chamar a atenção, com urgência, do prazer. E apesar disso dentro em pouco o perigo utilizar-se-á da felicidade de um homem.

É notável como grande parte da avenida Almirante Reis é ainda perpassada por uma sombra e no entanto o homem que será atingido daqui a quatro minutos verte grande parte da cerveja para onde deve ser. É um homem feliz em movimento e enquanto bebe verifica no céu o primeiro azul sorridente do ano. O homem com metade da cerveja bebida, em movimento, enfia o polegar no gargalo da garrafa enquanto os braços balançam. Os seus olhos passam pelas montras, casualmente, e no vidro fosco surge um homem alegre a cumprimentá-lo. A felicidade é contagiante. Aquele ali é que me entende, pensa. Retribui as saudações e prossegue. O homem que vai ser atingido retira o polegar do gargalo. É um festim e o homem feliz entra em considerações: uiva de olhos fechados e quando fecha os olhos volta-se para a noite e alcança a lua e o mar prateado e uma mulher na areia, estendida. Apressa-se a abrir os olhos e enfia a espuma na boca e entorna o resto de cerveja para onde esta deve ir parar. Nada derruba aquela animação. Por instantes aquela mulher estendida na praia tornou-se uma ameaça. De resto, quem pode ter percebido este deslize se o homem manteve o seu uivo afinado? Acabei por enfiar as mãos nos bolsos quando me enfiei na Rua dos Anjos. Remexo umas moedas supondo serem suficiente para um café. Não há ninguém ali, na Rua dos Anjos, disponível para me soprar ao ouvido que só me resta um minuto de vida até me deparar com um homem feliz a ser atingido. Depois os minutos, os meus, progredirão vida fora desalinhados, à semelhança da imagem no espelho. Não se encontra longe, o homem feliz, é mesmo ali, na esquina com a Almirante Reis. Ao contorná-la deixa para trás vestígios mínimos. Manchas no chão e uivos no ar. Segue muito depressa, agora, o tempo e a euforia do homem feliz. Um primeiro sopro do primeiro azul sorridente do ano entra na Rua dos Anjos acompanhado pelo homem feliz neste dia cruel. O homem está protegido e nada o pode derrubar, pensa. Vai depressa a descer a rua de braços agitados embora não tenha qualquer pressa. Nada deste mundo pode destruir uma felicidade daquela dimensão. Apesar disso faltam poucos segundos. Meto os bolsos ainda mais fundo nas mãos. De vez em quando elevo a cabeça. Não é grave deixar de confirmar o chão de vez em quando. Averiguo: todos mantêm as mãos nos bolsos. A vida é tão imprevisível que uns segundos antes de ser atingido um homem feliz é ainda feliz. Utilizando-se dessa felicidade, tornar-se-á perigoso. Desce a Rua dos Anjos. Agora é só um homem feliz a entornar na boca prostrada as últimas pingas de cerveja.

Dou-me conta, finalmente, da presença dele na Rua dos Anjos. Nas mãos, em vez dos bolsos, tem uma garrafa de cerveja. Ri alto. Enquanto avança, abre as asas. Depois a sua felicidade obriga-o a dançar e a brincar em bicos de pés e a sacudir a língua e a atirar para o ar, ao calhas, na vertical, o que se encontrava preso aos dedos. Não tenho como

fugir da garrafa. Fico encantado como roda sobre si própria lentamente, como admitimos acontecer nos filmes, numa ascensão irremediável até atingir a altura máxima (onde a garrafa permanece estática, congelada, um breve instante). Depois cai a pique, em câmara rápida, até entrar em colisão, sem pudor, com a cabeça do homem feliz. Agora é tarde demais, penso. E o homem feliz não foi minimamente perturbado com a pancada da garrafa. É fácil até adivinhar ao olhar para ele: nem uma breve suspeita de que algo tenha entrado em contacto com a sua cabeça. Desempoeirando-se, sacode o crânio como se as sementes primaveris ou as penas dos pombos loucos tivessem decidido fazer-lhe cócegas. Contudo, no topo da cabeleira, adivinham-se uns quantos fios de sangue a emergirem do couro cabeludo. Atingido pela felicidade o homem feliz continua o seu caminho feliz, imperturbável. Cruzo-me com ele e uns metros à frente todas as sombras negras aproximam-se. Ainda assim, penso, ainda assim acho mais extravagante quem permanece dez minutos ao espelho, a escavar uma imagem. Apressa o passo. Apressa o passo, penso. Deves estar atrasado. Tens duas soluções: acelerar o passo para chegares mais depressa ao que está no teu caminho, na tua dianteira. Acelerar o passo para fugires mais depressa do que está no teu caminho, ali, na tua retaguarda. Esfrego os olhos para apagar a imagem do homem feliz com a felicidade a rebentar-lhe na cabeça. A imagem não desiste e esfrego ainda mais os olhos com os nódulos dos dedos da mão direita até ser apanhado na Rua dos Anjos por uma das mãos, ou seja: sou apanhado com metade das minhas mãos fundas fora do bolso das calças.

Rui Almeida Paiva
Largo do Intendente, 19 - Quarto 26 - Maio de 2013

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