"A República Alexandrina" - O Fim do Teatro

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Sinopse

Há cem anos que uma reprodução de A Família de Dário diante de Alexandre, de Paolo Veronese, está no salão nobre da Sociedade Recreativa República Alexandrina. No tempo em que a causa pública fazia sentido, este salão foi palco de discursos, comícios, festas e debates sobre a vida da cidade. No dia em que celebra o seu centenário, e sob o perigo de ter a sua sede vendida, convidados estranhos desenham uma celebração inesperada. Num tempo em que diferentes linhas de possibilidades se cruzam, em realidades paralelas, e que, acima de tudo, duas ideologias se desafiam continuamente, nada, mas mesmo nada, os fará parar de lutar. Lá fora, o som das máquinas e dos violinos começam a ouvir-se.


Descrição do projecto

A República Alexandrina é o resultado intuitivo da observação dos processos e das lutas políticas que se aproximam, a passos largos, da nossa democracia liberal. O valor republicano da causa comum, de que da conduta de cada um depende a sorte de todos, está cada vez mais em perigo. A nossa cultura e as nossas relações sociais vão mudar num futuro próximo, correndo o risco de arrastar para o esquecimento, e para os arquivos dos museus, valores que hoje consideramos intocáveis e indiscutíveis. As conquistas culturais das democracias ocidentais pareciam até há pouco tempo eternas, como se a evolução das civilizações fosse sempre um crescente de liberdade e aceitação da diferença, mas nunca assim foi e nunca assim será. Este perigoso cenário distópico é exposto na acção de uma festa que acontece numa sociedade recreativa, anacrónica na luta contra a gentrificação urbana e despojada dos seus tempos áureos. Impotentes e surpreendidos, os seus membros são desafiados a participar numa nova ordem mais culta do que a anterior, ou assim parece.
Na actualidade, no centro de uma cidade, um grupo de pessoas bastante heterogéneo celebra um centenário. Mas não é um centenário qualquer, é o centenário de um espaço social onde se celebrou sempre a cultura e o conhecimento helénico/ocidentalizado, como pilares da memória e do futuro. Na Sociedade Recreativa República Alexandrina, esperam-se convidados para a comemoração mais aguardada da história, mas nenhum aparece. Como se apenas a burocracia e a logística dos convites tivesse falhado, angariam-se convidados desconhecidos no meio da rua, para garantir a importância do momento. Tal como nas nossas principais cidades se tem assistido ao desaparecimento destes espaços – por troca com a turistificação, através da especulação imobiliária com os proprietários – também ali se espera o pior, mas o pior que finalmente acontece é de outra natureza. Aparente e sem aviso nasce uma segunda realidade em que as personagens são assustadas e quando saem dos seus esconderijos são outros ou quase outros, cem anos antes, quando a Alexandrina foi criada. O mal que se lhes apresenta é o de um comandante de um exército de libertação que lhes oferece um estranho futuro de obediência e visão monocromática de uma nova cultura. Como reagir? Nisto, resistir é fundamental e nasce em cada uma das personagens uma nova força que, em duas realidades paralelas, a de hoje e a de há cem anos, lhes permite lutar pelo que acreditam até à morte.

Iremos, assim, dividir as armas da invasão e as da resistência, no Salão Nobre, sede da República Alexandrina, em duas realidades. O nosso objectivo é vincular o espectador à sua própria decisão de desistir ou lutar contra uma ideia estranha mas sedutora, com ligações ao programa de comunicação cultural do partido nazi alemão dos anos trinta e quarenta do século XX, com conceitos de arte degenerada, expurgo de obras e ideias inferiores mas que também reservava, roubava e arquivava secretamente milhares de obras classificadas como valiosas. Mas também vincular ao polémico conceito eurocêntrico de alta cultura com destaque para a música dita erudita e a pintura do renascimento que terão lugar de protagonismo na narrativa, sobretudo pela presença disruptiva e até perturbadora da manipulação da obra de Paolo Veronese, o quadro A Família de Dário diante de Alexandre, e do uso do instrumento violino como instrumento de tortura e de provocação.


Objectivos de interesse público cultural do projecto

Mantendo uma linha de trabalho sobre o fim, anunciado, do teatro, da arte e da nossa civilização ocidental – através do questionamento dos pilares das culturas europeia e ocidental, das defesas dos pilares mainstream da história contra o dinamismo multicultural integracionalista e multi-identitário, o propósito da salvação pela arte mantém-se. Nesta criação, criámos uma distopia com duas realidades paralelas que propõem a tomada de posição entre o invasor e o invadido, entre os que esperam e os que chegam, entre os que querem manter e os que querem mudar. Trazemos, assim, o conflito do posicionamento político para o centro do palco, através da metáfora histórica, com a teoria da repetição centenária da história do mundo ocidental. Estaremos a entrar nos loucos anos vinte e a apenas uma década da vitória dos movimentos anti-integracionalistas? Estaremos na repetição inevitável de ciclos de evolução liberal e inversão conservadora? Colocar o dedo na ferida e manter a apresentação pública e o fenómeno teatral no centro da pertinência social do momento é o nosso principal objectivo, agora e depois. Porque as nossas perguntas mantêm-se. O que fazer para continuar? Como encarar o passado? É algo para deixar para trás, ou um princípio do que vem à frente? Este é o princípio filosófico que continua a mapear o nosso processo de criação colectiva.

Formalmente, a luta entre elementos estruturais, entre a memória e a revolução, a distopia terá um carácter gráfico que permitirá ao espectador assumir a sua própria visão de futuro, negro, branco, transparente ou de qualquer outra cor do espectro do olho humano, que permita que ainda haja sociedades recreativas republicanas a cem anos daqui.

Para este espectáculo, propomos trazer, para um espaço único de acção, as ideias de invasão e de forças que se opõem, em campos ideologicamente opostos. O palco toma a forma de salão de uma sociedade recreativa, por onde muitas décadas e comemorações passaram.


Ficha Técnica e Artística

Equipa artística: Alice Ruiz, Cláudia Ribeiro, Filipe Abreu, Ivone Fernandes-Jesus, Mário Redondo, Mauro Hermínio, Pedro Baptista, Pedro Saavedra, Rafael Fonseca, Sofia Mestre e Rogério Jacques

Equipa técnica: Patrícia Roque, Rui Miguel e Sónia Rodrigues

Parceiro institucional: República Portuguesa – Ministério da Cultura


Sobre O Fim do Teatro

Criado em 2019, como consequência da apresentação do espectáculo O Fim do Teatro, este colectivo surge da vontade de questionar os fins do teatro. Para que serve? Para onde vai? Como continuar? Ficaram, assim, e desde logo, assentes as bases de um colectivo, herdeiro de contadores de histórias com interrogações de um mundo pós-dramático e de vários e diferentes questionadores que, encontrados na produção de um texto de teatro, nele se reviram nas suas inquietações e aspirações. A criação do espectáculo como meio de encontrar um fim comum, a diferentes gerações e diferentes estéticas, é o seu objectivo. A República Alexandrina será a quarta criação de Pedro Saavedra para a OF.DT.


Apoio à Residência

Câmara Municipal de Lisboa - RAAML (Regulamento de Atribuição de Apoios pelo Município de Lisboa)
Junta de Freguesia de Arroios

 

 


A partir de: 
24 de Agosto de 2021 to 29 de Agosto de 2021

Parcerias