Nuno Moura > quarto 21

Chega-se a um quarto com um propósito. Trouxe tudo o que preciso. Tratemos da disposição do mobiliário. Virar a cabeceira para norte, vamos lá arrastar isto, a secretária, tampo para baixo, todas as almofadas no seu interior, esta jarra no centro do poliban, tirar as pinturas dos quadros e deixar as molduras vazias. Atiram-me pedras à janela, não me posso distrair. Um candeeiro de tecto, desaparafusá-lo, pendurá-lo na janela, não, será notado, é melhor enfiá-lo na sanita, usá-la-ei assim mesmo, não vou urinar nesse sítio, com tantas possibilidades, para que é que se aluga um quarto? Ah, o esguicho em cheio na lâmpada, Chegas a um tempo em que já a cabeça não manda no resto, conseguiste, o corpo segue os seus afazeres. Vazar o interior do colchão e enchê- lo com estes ossos, com estes livros e discos, deixar a espuma no bidé, não vou usá-lo, então vá, desmontar este roupeiro e esta mesinha de cabeceira, preciso de espaço, agora sim, o cartão multibanco, o cartão de cidadão, o dos transportes, recortados e colados ao acaso no espelho. Parece o retalho deste cortinado, para que servem cortinado e janela à noite? É um esconderijo. Agora o computador, peça a peça, trouxe este martelo miniatura para desmontar o telemóvel e o relógio. Deixa ver se consigo colorir isto com agulha e linha, não é um colchão novo, tem aqui umas manchas. Deitar- me e deixar o texto em cima de mim. Pensar naquilo que uma agulha absorve. O mescal nasceu no intendente, foi o único sítio onde bebi bagaço com larva. Levado a casa por estorninhos. Sempre desconfiei que me metiam folhas de papel no meio das sandes. Terão estes pensamentos a qualidade dos últimos? A única coisa que me falta reconhecer é não ter nada a não ser esta posição, quando disse que o corpo se desprendia era porque tudo já era um sonho, os meus filhos numa casa. Não posso pensar em comida.

 

Nuno Moura
Largo do Intendente, 19 - Quarto 21 - Setembro de 2012

 

 

 

 

Projecto Principal