Miguel Carranca > quarto 23

Quarto 23 do Intendente

Agora escreve
Já foste parido
cresceste, fizeste-te homem
já amaste e desamaste e voltaste a amar
já foste o mundo a desfazer-se
e foste chão
agora escreve, animal
escreve coisas como
a vida só começa quando sabes que ela acaba
escreve coisas como
abracemos então o nada, juntos
desenha hinos para os livres
lembretes para ti
o teu caminho é não sabê-lo
rasgá-lo e seduzi-lo
num uno movimento

de tantas noites em branco
fizeste do branco a tua casa

hoje deram-te quarto
aproveita
mais um ponto no mapa
do espaço que deixarás vazio

e certo dia, o turbilhão
que te fustiga

faz-se música
INT. KEBABS / NOITE
Peço uma jola e um doner para forrar o estômago. Lá fora, duas prostitutas bem bebidas caem no chão de tanto rir: Uma, com pinta de cigana, tem uns quarenta anos bem estragados, a outra, a loira, tem pouco mais do que vinte, e boas pernas. Aparece um tipo baixinho com dois bifes, potenciais clientes.

LOIRA
Olha que eu não sei falar francês.

TIPO BAIXINHO
Mas fodes em todas as línguas, linda.

Ela aproxima-se e trocam-se palavras. Depois, dá dois passos atrás para que os estranhos lhe vejam melhor o corpo. Esboça, nas pernas abertas à noite fria, uma dancinha. Saem do meu campo de visão. Depois voltam.

LOIRA

Eu já venho.

Ela afasta-se, a cantar (uma canção de que eu não gosto) Ámen. (porque n'O Fim só resta a música)

seguem-na
de semblantes inseguros os estrangeiros

 

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