Margarida Ferra > quarto 29

Traz contigo a bússola, o mapa é a cabeceira da cama: outros recortes, o mesmo mundo, fronteiras cegas igualmente trémulas, memória de cidades que mudaram de nome e nunca conhecerás, como os lugares de um livro que sabes de cor.

Lá em baixo, o largo: como acima, fronteiras cegas igualmente trémulas. O largo, depois do varandim – como palavras, um vidro nos protege do mundo e mostra-o, mais pequeno. A janela aberta e todo o largo, como um espectáculo que ainda não começou, a chegar-nos pelas vozes dos que se chamam de um passeio a outro. O largo, depois do vidro, como um mapa riscado: como um desenho, os caminhos daqueles que atravessam ruas ligam todos os pontos. E sempre mais pontos de onde chegarão outros que, como nós, se descalçam.

Sabe que descalço é sobre a madeira que repousas, matérias simples sob os pés fazem de nós os mesmos, como as pessoas. Sabe que antes de ti houve sempre outros e outras e depois virão mais. Desconhecemos sempre a linha une os pontos de onde vêm, para onde vão. Entra em todos os quartos como num livro aberto ao acaso que responde às tuas dúvidas, como adivinhas. Tudo isto é mentira, a tua narrativa é escrita por ti e não há acasos, há uma ordem quase definitiva e sem explicação. Ou nada disso, tu és escrito pela tua narrativa e isso explica tudo. Assinala a tua resposta, como uma escolha.

Os livros em cima da cómoda só salvam quem quer ser salvo: é seguro descalçares-te, como no teu quarto.

Como uma fotografia, dois espelhos devolvem-nos um par de pés, metade das pernas, e o mapa em frente, um outro planisfério, um mundo quase igual ao que não conhecemos. Tira os sapatos, a tua planta no que foi plantado, como qualquer coisa viva. Tudo é branco, excepto onde pousas, e por isso, não ganhas raízes, segues, livre, para outro ponto depois deste e outro ponto depois: riscar todos os mapas futuros, como nos filmes. 

 

Margarida Ferra // Largo do Intendente, 19 - Quarto 29

Junho de 2012

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