Joana Bértholo > quarto 27

Depois de um fim-de-semana particularmente atribulado e que somou nenhuma hora de sono, o poeta bendigou o novo leito assim que a porta se fechou atrás dele, vedando um sorriso hospitaleiro de uma recepcionista particularmente bela, mas nele e em oposição o corpo a puxá-lo para baixo, até ao convite de uma cama espessa sobre uma camada de paletes. Um par novo de chaves na mão, logo no bolso do casaco, o casaco jogado sobre a cadeira. Exausto.

A primeira coisa que fez para honrar este espaço-oferenda, um abrigo que ele reconhecia generoso, foi dormir. Dormiu a prolongada e poética sesta, rimando estrofes com os quatro canto de um céu rectangular que o acolheu cheio de nuvens brancas e brandas, candeeiro-sol ao centro. Dormir bem - pensou ele - é função de um bom quarto, e os bons quartos apreciam-se melhor de olhos fechados.

Posteriormente interrogado sobre:

- Tinha uma mesa? Quantas cadeiras? Um candeeiro ao pé da cama? Cabides onde pôr o casaco?

- Não sei dizer - diria - dormi todo o tempo.

Esta resposta qualificá-lo-ia desde logo como um Excelente Quarto.

Ouviu uma mota acelerar ao fundo, numa estrada que não viria perto, e sentiu-se assim, também, vagamente potente. Estranhou não haver uma só imagem, uma moldura, ou um ícone. Espreguiçou-se, voltou-se e revoltou-se na cama, esta noite dolorosamente single, e ergueu-se então, deitado, ergueu foi os pensamentos até ao tecto, e constatou o seu céu mais acima que o costume. Elevou o pé direito, sem mexer as pernas. É raro em Lisboa sentir o pé direito assim tão alto.

Desistiu-se, calçou-se, voltou a apertar-se, o cinto. Neste quarto de pé direito alto, paredes cheias de branco e possibilidade, janela para aquilo que ele quisesse imaginar, o poeta decidiu que não iria mais rimar nenhum pensamento com a palavra "saudade", "falta" ou "carência". Ali, dentro daquelas quatro paredes, estava tudo o que ele precisava no mundo para estar no mundo. Pegou num dos livros que algum hóspede teria deixado para trás, ou que o próprio hostel teriam tentado usar como decoração, e abriu aleatoriamente, página 195: "“… afinal a ausência é também uma morte, a única e importante diferença é a esperança.” 

Agarrou-o uma súbita necessidade de partir: não por enfado, insatisfação, tão pouco abandono, mas porque um ronco no estômago não lhe sossegava a poesia que o quarto lhe sugeria. Deixou o poema-em-potência para a sobremesa, de métrica doce, e saiu em busca de uma tasca onde o nutrissem em troca do vento com que enchia os bolsos.

Entrelaçou com os pés linhas de carris de eléctrico e ruas sem geometria lógica, encontrou uma “Carvoaria” onde lhe satisfizeram todos os pecados começando e acabando na gula, onde lhe aceitaram todo o nada que possuía como pagamento, onde trocou uma boa conversa por um cigarro com o tipo da caixa registadora, e depois pensou no quarto, no seu novo quarto, e num poema lá à sua espera, como uma amante possessiva e instável, sedenta do seu retorno.

Voltou, nostálgico de uma memória que ainda não tinha, por não ter ainda passado tempo suficiente com as coisas em volta. Investigou uma mala de viagem a um canto, junto à cama. Teria sido esquecida pelo hóspede anterior ou seria também decoração? Intrigou-o o espelho encostado ao chão, onde assumiu o estado lastimoso dos seus sapatos. Descalçou-se. Dedicou-se a cada pormenor: folheou finalmente os livros, e não elegeu nenhum. Estava ali para ler um quarto, não um livro.

E foi o quarto que lhe começou lentamente a ditar as estrofes iniciais de um poema:

Sentou-se e recebeu-o, toda a noite.

Pela manhã tinha escrito um dos seus melhores poemas, e sentiu-se incapaz de o doar a alguém. Percebeu que além da fome e do sono é a poesia a função de um bom quarto, e encontrou para si um lugar eficaz, e promissor. Desceu e explicou às anfitriãs que tão calorosamente o tinham acolhido que não tinha sido possível escrever um poema nesta noite, ao que elas prontamente lhe concederam uma noite extra. Deixaram-lhe incluso sobre a cabeceira um pratinho com biscoitos de canela.

A noite seguinte foi de novo passada em branco, e de novo pela manhã ele se tinha apegado de tal forma ao poema recém-criado, que não foi capaz de o entregar. Voltou a descer e voltou a propor a extensão de uma noite. Só mais uma noite. Mas elas já sabiam, porque uma delas dormia mesmo em baixo e a outra mesmo em cima, que eram cúmplices silenciosas mas satisfeitas do tornado que a cada noite passava pelo piso que as separava, coisa veloz e efémera que varria tudo. Pela manhã, as plantas sorriam na bancada e o sol entrava pelos quartos com muito mais convicção. Os croissants saiam mais fofos para a mesa do pequeno-almoço, e o sumo de laranja mais vitaminado. Os hóspedes andavam mais felizes, e perante tudo isto as donas do Hostel não puderam senão acatar os contínuos pedidos de extensão da residência poética, só mais uma noite, sempre só mais uma noite, com a promessa de um poema que nunca chegaria.

Chegou sim o dia em que a noite a mais era já tantas noites que ele deixou de pedir, e só por isso elas deixaram de conceder, e o poeta passou a ser tão parte da mobília deste Hostel quanto a Mona Lisa na cozinha, o mapa de Lisboa sobre a mesa de entrada, o guarda-chuva esquecido por um turista alemão na chapeleira do bar, ou o cão rafeiro a mijar as árvores lá em baixo no Largo. Tão parte daquilo tudo que podia nem existir.

Dizem que é possível encontrá-lo às vezes a entrar ou sair do quarto 27, sempre que se acabam os quadros de Dali ou os biscoitos de canela.


Joana Bértholo

Largo do Intendente, 19 - Quarto 27 - Julho de 2012

Estão quatro pilhas de sensivelmente 4/5 livros cada, e este fui escolhê-lo à primeira pilha a contar da esquerda, entre um Neruda e um Gil Vicente, e saiu-me: O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, editorial Caminho. Estado: Bastante Usado.

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