"Estúdio do Bairro" de Nicole Sánchez - Residência Anual 2022

Estúdio do Bairro de Nicole Sánchez

A composição social de um bairro através do seu retrato
- de que matéria somos feitos -

 

SINOPSE

O porquê deste projecto?
Com o fim dos estúdios fotográficos de rua, tão comuns até ao final da década de 90, ficou adormecida a tradição, o ritual e a rotina de irmos ao fotógrafo. Fosse por necessidade, como as fotografias de passe, ou por celebração de algum evento familiar social, a ida ao fotógrafo era um evento marcante nas nossas vidas. Na rua, a loja, e a sua montra apresentava um escaparate de pessoas, das pessoas do bairro. Reconhecíamo-nos uns aos outros. Eram os nossos retratos. A composição social daquele bairro era exposta como uma memória individual formando uma ideia de colectivo.

Quase sempre com vista para a rua, numa loja e com a montra aberta para o público, os estúdios apresentavam um escaparate de pessoas em que os retratos, fossem eles individuais ou colectivos, eram ensaiados e cuidadosamente aprimorados. Quase sempre acessível, quer a nível de mobilidade e de preço, e sempre de porta para a rua para quem quisesse entrar.

Gradualmente foram fechando com a chegada dos fotomatons - colocados nas estações do metro, do comboio, outros em centros comerciais -, das máquinas digitais, das câmaras dos telemóveis ou, simplesmente, porque uma nova geração deixou de ter tempo ou possibilidade de se deslocar a um fotógrafo. Perdeu-se assim este registo em forma de ritual.

Comecei a questionar-me no meu trabalho fotográfico, sobre se estes retratos não seriam mais do que uma pesquisa antropológica de um lugar, de um país num determinado momento histórico, e com essa pergunta nasce a ideia do projecto ‘estúdio do bairro’.

Num momento em que raramente sabemos quem habita ou trabalha ou estuda no nosso bairro, em que a sociedade virou-se mais para dentro do que para fora, o estúdio vem proporcionar esse reencontro. Essa montra de retratos das pessoas do bairro que antigamente se expunha de forma espontânea e na qual nos revíamos e nos reconhecíamos. Será um retrato das diferente camadas de tecido social que é composto o bairro aos dias de hoje.

Esta residência artística recebe como projecto mãe o ‘estúdio do bairro’. Na sua essência, funcionará aberto para a comunidade, proporcionando sessões simples de retratos in- formais, que se irão compilar nesta recolha antropológica e social. Será assim indissociável do local onde se insere, acolhendo todas as pessoas independentemente da idade, género, deficiência, raça, etnia, origem, religião, condição económica ou outra, garantindo assim a acessibilidade ao fotógrafo e ao seu retrato. Será gratuito para assim poder acolher toda a comunidade do bairro, no mesmo espaço com o mesmo enquadramento para que o foco esteja na pessoa, e não no seu entorno.

"Socialmente, pode o estúdio criar uma unificação na sociedade outrora separada, isolada e individualizada?

Com uma ‘fórmula’ de igual para todos, permitirá quebrar alguns afastamentos, aproximando pessoas que de outra forma jamais se encontrariam. Será um objecto final de estudo, a comunidade ou o estúdio? São algumas questões que terei presentes durante o tempo do ‘estúdio do bairro’ e na composição da obra final.
Ao mesmo tempo, o ‘estúdio do bairro’ irá desenvolver outras actividades próprias de um estúdio fotográfico, seja eventos ou sessões especiais, temáticas, workshops, encontros.


PERTINÊNCIA DO PROJECTO

Retratar de forma aberta sem qualquer restrição dá a possibilidade de guardar um mo- mento histórico de referência e valor antropológico. A parte visual do estudo oferece uma forma de ver e perceber uma sociedade mas também a descoberta de novas questões. “Visual anthropology may offer new and different ways of understanding, but also new and different things to under- stand.” Barbara Turk Niskač: Some Thoughts on Ethnographic Fieldwork and Photogra- phy ( nota 5 ).

Os retratos elaborados vão dar-nos uma imagem cultural do que é o bairro hoje, quem o compõe, quem o habita, quem por ali passou. E com eles a peça final da fotografia global valorizando o que compõe o bairro socialmente, as pessoas. É necessário e mais do que nunca será necessário sermos um colectivo. Apesar do afastamento, é este o momento crucial de uma sociedade, que necessita manter-se viva e sobretudo unida.

Esta será uma união visual que, de outra forma, poderia até nunca acontecer, ou seja, o cruzamento de vidas e a convivência lado a lado de pessoas que não se conhecem. Permitir a ligação entre diversos mundos, sempre com a premissa de que o retrato serve para enaltecer a pessoa como ela é, e não pelo que faz ou tem.


CARTA DE MOTIVAÇÃO

If we are going to have to re-engineer society after coronavirus, we need art that is less about individualism and the ‘artistic genius' and more about artists and institutions that focus on systematic solutions and collective/collaborative practices that foster community care and participation, collective consciousness and action-taking. ( nota 1 )

O projecto "Estúdio do bairro", pensado no contexto em que vivíamos em 2021, pretende retratar um bairro através dos seus habitantes. Teve assim o seu início no final de 2021, numa residência artística no LARGO RESIDÊNCIAS, em Lisboa, em ARROIOS, no INTENDENTE, e irá prolongar-se durante todo o ano 2022.

Há 13 anos a residir em ARROIOS, o meu núcleo familiar, profissional e social tem vindo cada vez mais a emergir neste bairro. Confiro-lhe o estatuto de ‘o meu bairro’. Conheço alguns dos recantos tanto quanto alguns dos seus encantos e desencantos. ARROIOS trouxe até mim a necessidade e vontade quase por impulso, de fazer algo com a comunidade, mas também para a comunidade. Questionei-me sobre o meu papel como artista e fotógrafa e de que forma poderia promover e partilhar uma experiência inclusiva. Esta questão, sobre o meu papel para e na sociedade, já era muito latente enquanto estudante de arquitectura e posteriormente exercendo a profissão. Havia uma procura constante e uma curiosidade de como a minha intervenção como arquitecta no território iria ter um impacto na vivência do mesmo.

Paralelamente, fui desenvolvendo trabalho comunitário no bairro como os Jantares Comunitários ou os Minutos Solidários (ambos os projetos através da Serve the City), estas experiências tiveram um impacto muito pessoal que me fez questionar o modo como nos relacionamos e qual a nossa responsabilidade social. Foram estes momentos que me consciencializaram ainda mais para questões como a desigualdade, a solidão, ou o abandono.

Nos Jantares Comunitários, voluntários e pessoas em situação de fragilidade jantam lado a lado. Por um momento partilham experiências de vida, permitindo oferecer uma ‘normalidade’ e uma convivência sem barreiras sociais ( nota 2 ). Este princípio de igualdade é também a base do projeto. Abrir as portas a toda a comunidade, promovendo um momento de ‘normalidade’ que pode ser o ponto de partida para uma inclusão na sociedade e/ou no bairro.

Em 2017, no projecto Minutos Solidários, foi o contacto com a população idosa em Lisboa, que se encontrava só, e que em breves momentos da sua semana era acompanhada por voluntários no seu dia a dia. Lisboa estava a sofrer uma pressão forte no imobiliário, o que fez com que muita da população mais idosa estivesse a sofrer muitas vezes só, a saída forçada das suas casas.

O "Estúdio do bairro" inseriu-se assim no tecido social do bairro de ARROIOS, desde Novembro de 2021, em sessões mensais permitindo a qualquer pessoa fazer o seu retrato. A única premissa é a sua presença no bairro naquele momento. Questionei-me frequentemente quem eram, o que faziam e porque por ali passavam; tentei não registar essas informações. Fui expondo o projeto na medida da curiosidade de cada pessoa, deixando de lado os detalhes sobre cada uma delas, promovendo a livre interpretação da relação com o lugar e entre si.

Tornou-se evidente muito rapidamente que o projecto criou um ponto de contacto entre artista – comunidade e entre as pessoas do bairro. O "Estúdio do bairro" foi visitado por cerca de duas centenas de pessoas entre Novembro de 2021 e Abril de 2022, tornou-se um ponto de encontro muito solicitado e querido pelos vizinhos. Em Fevereiro de 2022, foram expostos os primeiros retratos e o mês foi dedicado inteiramente ao estúdio do bairro com duas sessões por semana. A cada sessão novas pessoas visitam o estúdio e são entregues fotografias impressas a cada pessoa já retratada. Agora, o objetivo é manter as sessões fotográficas pelo menos uma vez por mês durante o ano de 2022, período em que sou a artista convidada 2022 no LARGO RESIDÊNCIAS ( nota 3 ).

Com a continuação da residência artística, o "Estúdio do bairro" será o projeto central com sessões abertas ao público. No final do ano, a apresentação do trabalho visual será feita através de um “retrato de família” a apresentar num dos espaços do LARGO RESIDÊNCIAS. Através das imagens captadas ao longo de mais de um ano formar-se-á um “retrato social do bairro”, uma pequena parte desta composição social que será a imagem de um grupo através da sua individualidade.

E afinal, quem somos nós senão uma pequena parte de um todo.

NOTA 1 

NOTA 2 

NOTA 3.1  NOTA 3.2  NOTA 3.3  NOTA 3.4


Ficha técnica e artística

Autoria: Nicole Sánchez
Entidade promotora: Largo Residências

Apoio financeiro
Câmara Municipal de Lisboa - RAAML (Regulamento de Atribuição de Apoios pelo Município de Lisboa)

Apoio à divulgação
Junta de Freguesia de Arroios


PORTFOLIO ARTÍSTICO
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A partir de: 
1 de Janeiro de 2022 to 31 de Dezembro de 2022

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