"Ciclone" - Leonor Cabral

"Ciclone" de Leonor Cabral © João Tuna

Aos olhos nus, não passava de uma chuva repentina, mas aqui dentro soava como uma tempestade.
Clarice Lispector

Sinopse

CICLONE é um projecto sobre o modo como as condições meteorológicas nos influenciam e como as narrativas pessoais (neste caso a minha) são alteradas. Parte de uma observação objectiva do tempo atmosférico e do binómio previsão / acontecimento. É este ciclo de expectativa / desilusão associado à previsão metereológica que pretendo transpor para uma leitura mais humana: como é que vamos gerindo as tempestades emocionais que nos vão devastando e como conseguimos encontrar a bonança? O objectivo é cruzar dados meteorológicos com dados autobiográfico.


Ficha técnica e artística

Criação, dramaturgia e interpretação: Leonor Cabral
Apoio à criação: João de Brito
Apoio à dramaturgia: Keli Freitas
Assistência: Inês Ferreira da Silva
Vídeo e fotografia: Vitorino Coragem

Espaço cénico: Tiago Cadete
Figurinos: José António Tenente
Iluminação: Tiago Cadete
Produção: LAMA Teatro e Ciclone


Anotações sobre o projecto

Em 2017, ouvi falar pela primeira vez do norte-americano Henry Darger (1892-1973): um empregado de limpezas num hospital em Chicago que durante seis décadas trabalhou criativamente num universo fantástico: entre outros, criou uma obra literária – Reinos do Irreal – escrevendo primeiro, desenhando depois: mais de quinze mil páginas escritas e cerca de trezentas ilustrações. Apenas depois da sua morte, e porque o apartamento minúsculo onde vivia teve que ser esvaziado, é que se descobriu a sua prolífica obra artística. Darger, um excêntrico solitário, tinha afinal a sua própria maneira de se relacionar com o mundo, criando um universo complexo, denso e rico. Tornou-se postumamente reconhecido como um dos principais nomes da arte bruta. Dos seus vários trabalhos, um prendeu-me o olhar: entre 31 de Dezembro de 1957 e 31 de Dezembro de 1967, Darger registou diariamente em 6 cadernos de argolas anotações sobre a sua observação do tempo e as imprecisões dos boletins meteorológicos com o título PREVISÕES METEOROLÓGICAS DE FRIO E CALOR, TAMBÉM ONDAS DE CALOR NO VERÃO E VAGAS DE FRIO, TEMPESTADES E DIAS CLAROS OU NUBLADOS, AO CONTRÁRIO DO QUE DIZ O METEOROLOGISTA, E TAMBÉM VERDADE (tradução livre). Para simplificar, vou chamar-lhes DIÁRIOS METEOROLÓGICOS. Na sua autobiografia intitulada HISTÓRIA DA MINHA VIDA, Darger refere que a sua obsessão com a meteorologia existe desde criança. Destaca o seu fascínio por tempestades e as horas que passa sentado à janela a observá-las. Tinha vários dossiers onde guardava recortes de imagens de tempestades que depois utilizava nas suas composições gráficas. Mas porque é que Darger se auto-impôs esta tarefa de registo concreto, formal, quase mecânico? Não se trata de uma investigação sobre os efeitos que o clima tinha em si próprio, focava-se apenas nas diferenças entre a previsão e o que verdadeiramente aconteceu.

A descoberta dos DIÁRIOS METEOROLÓGICOS de Darger fez-me reflectir sobre a minha própria relação com tempestades. Cresci na ilha de São Miguel onde há o famoso “anticiclone dos Açores”: centro de altas pressões atmosféricas. No arquipélago dos Açores são frequentes os ciclones. Um ciclone é uma tempestade tropical ou subtropical muito violenta, com ventos devastadores girando em turbilhão e deslocando-se a grande velocidade, provocada por uma forte depressão barométrica. No sentido figurado, é uma circunstância repentina, fato ou situação, que pode alterar completamente a vida de alguém. Desde criança, sinto-me fascinada por estes ciclones que fui testemunhando. Têm um incrível potencial transformador: arrancam casas do chão, provocam desabamentos de terra, fazem vacas voar, mas quando terminam é sempre preciso recomeçar, é sempre preciso reconstruir. Experienciei ciclones tropicais assim como ciclones figurados.

A minha existência tem sido “atmosfericamente transformada por efeitos climáticos” e eu própria tenho “semeado ventos para colher tempestades”. Posso dizer que sou uma colecionadora de tempestades interiores e que Henry Darger era um colecionador de tempestades exteriores.

Como artista, estou interessada na estética dos desastres naturais. Na tradição judaico-cristã, as manifestações naturais de extrema violência podiam significar a presença de Deus, ou até a fúria divina pelos pecados humanos. Mas hoje em dia alertam-nos para o aceleramento das alterações climáticas e a nossa responsabilidade enquanto seres humanos.

CICLONE é um projecto sobre o modo como as condições meteorológicas nos influenciam e como as narrativas pessoais (neste caso a minha) são alteradas.

Parte de uma observação objectiva do tempo atmosférico e do binómio previsão / acontecimento. Quantas vezes nos disseram que ia fazer sol e acabámos encharcados até aos ossos? Quem nunca foi de férias numa semana em que afinal houve rajadas de vento a 150k/h? É este ciclo de expectativa / desilusão associado à previsão metereológica que pretendo transpor para uma leitura mais humana: como é que vamos gerindo as tempestades emocionais que nos vão devastando e como conseguimos encontrar a bonança? O objectivo é cruzar dados meteorológicos com dados autobiográficos.

As alterações repentinas do tempo podem ser interpretadas como sinais ou presságios. Alguns de nós estão equipados com barómetros internos, especialmente perceptivos de alterações de pressão atmosférica, antes mesmo de ela acontecer: é como se uma determinada articulação do corpo funcionasse como antevisão do tempo.

Assim, o corpo é o lugar privilegiado para este projecto: lugar de destruição e reconstrução. Como é que estes ciclones se inscrevem no corpo? Que atmosferas consegue o corpo gerar? Como desenhar tempestades com o corpo? Como estar alerta para a ameaça de potenciais tempestades? Este projecto reflecte sobre os ciclones interiores à luz dos ciclones exteriores.

Nota final

Nos anos 50, os EUA adoptaram um sistema onde só davam nomes femininos a tempestades. Embora essa lei já não esteja em vigor, a tradição manteve-se. Isto levou muitos meteorologistas a referirem-se a tempestades usando clichês sexistas para descrever seu comportamento - esta era “temperamental”, a outra estava a “flirtar” com o litoral. Furacão Katrina, tufão Tanya, ciclone Leonor... 


Datas de apresentação

26 e 27 de Maio de 2022: Black Box do CCB, inserido no Festival Temps d’images
25 Agosto de 2022: Teatro das Figuras, Faro.


Apoios à Residência no LARGO

Apoio financeiro
Câmara Municipal de Lisboa - RAAML (Regulamento de Atribuição de Apoios pelo Município de Lisboa)

Apoio à divulgação
Junta de Freguesia de Arroios


A partir de: 
1 de Março de 2022 to 22 de Abril de 2022

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