Niet Hebben - Carta Rejeitada

Residência Artística - Crista Alfaiate e Diogo BentoResidência Artística - Crista Alfaiate e Diogo BentoResidência Artística - Crista Alfaiate e Diogo Bento

sinopse

Em cena, tipo, uma actriz algemada. Mãos presas como uma criminosa. Ainda assim, disposta a escrever uma carta como quem fala. Enquanto fala. Acusada por si própria de vasculhar a correspondência alheia, reflete sobre o conteúdo de algumas cartas que leu (indevidamente, à socapa, em vez de estar a “anhar” no instagram ou a tirar selfies). Partindo de textos conhecidos como Carta do achamento do Brasil de Pero Vaz de Caminha, Carta ao pai de Kafka, Carta a Bosie de Oscar Wilde, Cartas portuguesas de Mariana Alcoforado e Novas cartas portuguesas de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, entre outras, blá blá blá, esta carta fora do baralho pretende repensar alguns temas como o feminismo, a guerra e o pós-colonialismo num mundo onde o facebook e otweeter é que estão a dar cartas. Uma carta que tanto pode ser um discurso ou um e-mail, sem medo do passado e de olhos postos no futuro. Uma correspondência a ser trocada entre toda a família e para pessoas dos 10 aos 15 anos.


ficha técnica

Texto Original: Crista Alfaiate e Diogo Bento

Criação e Interpretação: Crista Alfaiate
Apoio à Criação: Diogo Bento

Desenho de luz: Rui Monteiro

Desenho de Som / Sonoplastia: Sérgio Martins e Rui Lima
Figurinos: Aldina Jesus

Conteúdos Gráficos e Visuais: Catarina Lee

Direcção de Produção: Joana Costa Santos

Coprodução: Teatro LU.CA e TNSJ

Apoio: Fundação GDA e LARGO Residências


exposição detalhada do projecto e respectivos objectivos

Este projecto nasceu de uma ideia original de Crista Alfaiate a partir do universo da correspondência. Após ter apresentado em 2017, no Teatro Maria Matos, o espectáculo Animenos, construído a partir do texto de Rita Taborda Duarte intitulado Animais e Animenos, surgiu a vontade de conceber um objecto artístico, desta vez para um público juvenil (dos 10 aos 15 anos), acerca do género epistolar, ou seja, cartas.

Postas as cartas sobre a mesa, iniciou-se então uma parceria criativa com Diogo Bento, com o intuito de estruturar conceptualmente o projecto e criar, isto é, escrever o texto a quatro mãos, duas bocas e uma série de cabeças, o qual servirá de base à longa carta dirigida ao público – este espectáculo. Já lá vamos.

Naturalmente que o ponto de partida não poderia ser mais vasto. Num primeiro momento, lemos e vimos e ouvimos cartas. Ou tudo o que se pudesse relacionar com cartas. Enumeramos apenas alguns exemplos: Carta do achamento do Brasil, de Pero Vaz de Caminha; Carta sobre a felicidade, de Epicuro; Carta ao pai, de Kafka; Carta aos Pisões, vulgarmente designada de Arte Poética, de Horácio; correspondência diversa entre Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro, Ofélia Queiroz, Adolfo Casais Monteiro, entre outros; Três cartas da memória das Índias, de Al Berto; Carta Internacional dos direitos humanosCartas portuguesas, de Mariana Alcoforado; Novas cartas portuguesas, de Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta; Carta a Boosie, de Oscar Wilde; Prisioneiros portugueses na I Guerra Mundial, de Maria José Oliveira; conferência de Abel Barros Batista, entre outras, num ciclo designado Nove dias sobre cartas, organizado pela Universidade de Lisboa; cartas de Acácio Nobre no maravilhoso livro de Patrícia Portela intitulado A colecção privada de Acácio Nobre; Conversa acabada, de João Botelho; A Letter to three wives, de Mankiewicz; correspondência trocada entre Einstein e Freud; posts de facebook; tweets; Ray Johnson e a mail art; On Kawara e as cartas enviadas a outros artistas diariamente apenas a dar conta da felicidade de estar vivo; Sophie Calle e o trabalho Prenez soin de vous; Ad Reinhardt e a sua célebre carta/obra contra a Guerra do Vietname; etc, etc, etc. A lista é infindável. Perante isto, colocavam-se questões de naturezas diversas.

Em primeiro lugar, porquê cartas, nomeadamente numa altura em que o e-mail lhes passou a perna? Porquê cartas, numa época em que as mensagens públicas no twitterde Donald Trump suscitam reacções de norte a sul do planeta? Porquê cartas, quando todos nós temos tantas formas de expressão tão apelativas e bem mais rápidas?

Em segundo lugar, como abordar este tema junto de um público juvenil que não tem nenhuma relação com cartas, a não ser do ponto de vista pedagógico o estudo de cartas formais e informais, o preenchimento de um envelope e a distinção entre remetente e destinatário? Como trazê-lo para o nosso lado quando aquilo que lhe é pedido é que marrem e empinem, muitas vezes sem nenhuma aplicação prática, os elementos constituintes de uma carta (a saber: local e data, saudação inicial, corpo da carta, despedida e assinatura, com direito esporádico a post scriptum)?

Em terceiro e último lugar, como abordar tantas referências e tantas cartas escritas por tanta gente, em épocas tão distantes e geografias tão diversas, sem cair num didactismo enfadonho de name dropping constante? Que fazer com o discurso desta multidão, que nos tem ocupado a cabeça à semelhança de heterónimos à beira de um ataque de nervos? Como fazer dele um discurso, como criar a partir dele o nosso discurso?

Então, uma resposta de cada vez. Quanto às primeiras dúvidas, convém lembrar que uma coisa não é outra coisa. Neste espectáculo, será reforçado que uma carta não é e nunca será um e-mail, nem se pode comparar a outros meios de comunicação ou a mensagens diversas enviadas em qualquer rede social. Além do seu longo passado e da tradição que tem, a carta pertence também a um género literário bem definido, estudado desde o 5o ao 12o ano, e praticado desde tenra idade, como é disso testemunha o envio das célebres cartas ao Pai Natal. Isto porque uma carta é uma coisa simples, com uma estrutura simples. Exige apenas uma folha de papel em branco e alguma vontade para nela gravar palavras, pensamentos e opiniões. Ela constitui um suporte para a comunicação, uma possibilidade de estabelecer uma troca entre aquele que a escreve, desenha e concebe e aquele que a recebe, vê e interpreta. O seu fascínio reside muito na surpresa, na expectativa e na possibilidade eminente da descoberta e partilha de algo.

Importa ainda realçar que a carta concreta, a manuscrita, inspira uma relação bastante diversa da que estabelecemos com as mensagens electrónicas, sobretudo por causa de um conjunto de sensações aparentemente banais, como a caligrafia do emissário, a caneta e a força empreendida no momento da escrita, a par da pressa, do cansaço, da euforia e do vagar, os enganos, os riscos e rabiscos. Escrever uma carta implica dar do nosso tempo, dedicá-lo ao outro, comprar um selo, lamber o envelope e, porque não, beijá-lo antes de o confiar a uma marco anónimo de correio. Como se fossem cartas trocadas entre Hamlet e Ofélia. Cartas de paixão. Recorremos precisamente a este material porque nos parece fascinante e com ele esperamos contaminar o nosso público, como se de uma febre se tratasse.

No que diz respeito ao segundo rol de questões, cabe-nos afirmar que um dos nossos principais objectivos é tratar este tema da forma mais humana possível. Passamos a explicar. Ao invés de estarmos preocupados com conteúdos pedagógicos formais, pretendemos acima de tudo brincar com esses mesmos conhecimentos e passar outras mensagens, presentes em algumas das cartas lidas. Ao mesmo tempo que revisitamos uma área de conhecimento transmitido na escola, queremos com este espectáculo sublinhar que uma carta é um espaço aberto, ao dispor de todos e através do qual todos poderão expressar-se, escrever- se, recriar-se e reinventar-se. Tal como um espectáculo, uma carta também pode ser uma experiência estética e sensorial única, um espaço onde surgem histórias inéditas que estranhamente se cruzam, desdobram e se revelam.

Finalmente, este espectáculo-carta será escrito e organizado como se de uma carta se tratasse. Terá ele também um local e data indicados, uma saudação inicial, um corpo, uma despedida e assinatura. Até um post scriptum. Nele, uma actriz serve-se da estrutura da carta para estruturar o seu discurso. Uma actriz algemada, ou melhor, que se algemou, porque se confessa criminosa: leu cartas que não lhe eram endereçadas. Parece pouco, mas é uma actriz com remorsos por ter vasculhado em papéis alheios. Correspondência alheia. Ela apresenta-se ao público, fala das cartas que leu, das cartas que outros escreveram, aborda assuntos tão díspares como o feminismo, a guerra, a arte, a censura, o amor e, obviamente, os direitos humanos. Manifesta-se contra uma série de outras coisas que a vão apoquentando enquanto reflecte e faz reflectir sobre temas da actualidade, estabelecendo pontes e comparações entre o seu tempo e o tempo actual.

Esclarecemos: esta figura foi imaginada a partir de um evento reportado peloThe guardian em 2016. Fora encontrado numa estação de correios abandonada um baú repleto de correspondência por abrir, de séculos anteriores. Entre estas cartas, encontra-se a de uma actriz/cantora de ópera que saiu de Haia, na Holanda, para trabalhar numa ópera a ser apresentada no estrangeiro. Imagine- se que seria aqui em Portugal, na Casa de Ópera da Real Quinta de Belém, actualmente designada como Belém Clube. Ela vê-se abandonada pelo seu amante, que nunca lhe respondeu à sua carta onde lhe pedia ajuda para voltar para junto dele porque estava grávida. É, portanto, através deste acontecimento verídico e desta figura de outrora, que mistura tempos e cruza informações remotas, que se estabelecerão links com a vida contemporânea e com alguns temas mais controversos como a emancipação da mulher ou a igualdade de género, de uma forma por vezes lírica, outras vezes assertiva, mas nunca paternalista. A partir da história desta actriz, que poderá ser vista como uma espécie de fantasma aprisionado neste teatro, pretende-se repensar os tempos actuais através de cartas do passado mas com conteúdos ainda tão presentes e prementes.

Agora, é forçoso sublinhar que este espectáculo não é uma colectânea de cartas, apesar de nos termos inspirado em muitas e diferentes cartas da literatura e não só. Não é um registo histórico sobre correspondência. Não é um exercício de nostalgia, ainda que tenhamos recuado mais de 2000 anos na história. Não é um manifesto contra a privatização dos CTT, embora seja um acto político.

Numa idade em que todas as dúvidas se levantam, em que os primeiros ideais se fixam e consolidam, torna-se importante reflectir acerca de todos os temas enumerados. Importa ainda aniquilar preconceitos sociais que muitas vezes se enraízam como dogmas sem fundamento e mostrar outras alternativas possíveis à felicidade, num mundo onde a pluralidade, o respeito, o amor, a paixão e o elogio da diferença são valores a defender. Digamos que este, sim, é o nosso principal objectivo artístico. E político. E ético. E esperamos que poético, também.


Residências artística com o LARGO Residências:

3 de Novembro 2018 a 2 de Dezembro 2018

26 e 27 de Fevereiro 2020


A partir de: 
26 de Janeiro de 2020 to 27 de Janeiro de 2020

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