DOC LISBOA - ARCHÉ

O DOC Lisboa traz, com o projecto ARCHÉ, 3 artistas para desenvolverem as suas pesquisas durante e após o festival DOC Lisboa.


Lucía Salas, Argentina

With Land 

Talvez os artistas sejam colonos. Mas quanto dessa colonização produzem eles? E o espaço, o território, a terra onde tudo acontece, tem um peso? With Land é um projeto de investigação em torno destas questões, num contexto específico, o dos filmes de não-ficção, feitos por estudantes estrangeiros na CalArts - Instituto de Artes da Califórnia, e filmados em Los Angeles. Mais de um terço dos alunos da escola são estrangeiros e estas questões fazem parte das nossas conversas colectivas. A escola fica na cidade e no meio do nada, entre Hollywood e o deserto. Os filmes são locais e estrangeiros ao mesmo tempo. A Grande Los Angeles é um território no qual vivem quase 19 milhões de pessoas, que existe legalmente nos Estados Unidos, mas no qual convivem muitos outros lugares, devido aos fluxos migratórios: uma extensão da América Latina a partir do sul, uma parte da Ásia pela região do Pacífico e a partir daí, o mundo a partir de todas as suas margens. Todas as suas fronteiras estão cheias de história e violência. Este projecto procura também fazer justiça a uma cidade terrível e fascinante, hipnótica, a mais bela e horrenda que toda a gente adora odiar. Busco algo entre a sua violência constante e o abrigo em filmes que existem em espaços que geralmente formam mais parte do fora de campo do imaginário de Los Angeles que do seu centro.

 

Maybe artists are settlers. But, how much of that colonization do they produce? Does space, territory, land itself have any agency in all of this? With Land is a research project around this questions in the specific context of films made by international students from

the California Institute of the Arts, shot in the city of Los Angeles. More than one third of the school’s population is international, and this takes part in our collective conversations. The school is both in the city and the middle of nowhere, between Hollywood and the desert. The films are as local as they are foreign. Greater Los Angeles is a territory in which almost 19 million people live. In exists legally in the US but many lands coexist it: it could be an extension of Latin America from the south, a part of Asia through the Pacific and, from then on, the world in all its margins. All its fronteers are filled with history and violence. This project also looks for ways of doing justice to a terrible and fascinating city. Hipnotic, the most beautiful and the ugliest, the one that we all love to hate. I am looking for grounds between its constant violence and its refuges in films that work through spaces that are usually a bigger part of the off-screen space of the imaginary of Los Angeles than of its center.

 

NOTA DE INTENÇÕES / AUTHOR ́S NOTE

No filme The Prowler, de Joseph Losey, um personagem diz para outro: não existe  ninguém nascido e criado na Califórina. Um dia, por acidente, andei no meio de uma das muitas projecções que a minha escola organiza na semana anterior à cerimónia de formatura. Na tela, uma jovem mulher carregando alguns sacos de compras estava à espera do autocarro. Em todo o mundo, isso é a coisa mais comum, mas em Los Angeles é um mistério e um pesadelo. A paragem de autocarro também era a minha, aquela por onde passo todas as manhãs, tarde ou noite, sob o sol forte ou na escuridão mais completa, cercado de cimento, terra, relva seca e a ameaça de gambás e coiotes. 

Todos os que passam de carro, olham-me com pena, dependente de um serviço público, como se fosse um castigo. Um choque cultural que eu considerava irreconciliável subitamente se tornou mais leve; no filme de outra pessoa, encontrei o meu próprio esforço de uma reconciliação violenta. A partir de então, procurei filmes que pensassem sobre a cidade e os seus lugares para pensar com clareza. A maioria dos meus amigos são imigrantes de lugares diferentes e, para cada um, há um lugar onde eles podem encontrar os seus mercados, os seus bairros, pessoas que falam a sua língua e que comem a sua comida. Diferentes formas de viver juntas numa cidade em que muitos ficam porque as coisas estão piores em casa. A cidade mais exclusiva tem um canto para todos. Uma série de mistérios advem disso, suspeitosamente invisíveis. É difícil entender como eles estão tão escondidos na cidade mais fotografada do mundo.

Gostaria de olhar para alguns deles.

 

In Joseph Losey’s The Prowler, a character says to another: there is no such thing as a born californian. One day, by accident, I walked in the middle of one of the many screenings that my school organizes the week before graduation. On the screen a young woman carrying some grocery bags was waiting for the bus. Everywhere in the world this is the most common thing, but in Los Angeles it is a mystery and a nightmare. Her bus stop was also my bus stop, the one I walk by every morning, afternoon or night, under the striking sun or in the most complete darkness, surrounded by concrete, dirt, dry grass and the threat of skunks and coyotes. Every car that passes by looks at you with pity, depending on something public must seem like a punishment. A cultural shock that I considered irreconcilable suddenly became lighter, in someone else’s film I found my own efforts of a violent reconciliation. From then on I looked for films that were thinking about the city and its places to think clearly. Most of my friends are migrants from different places and for each one there is a place where they can find their markets, their neighbourhoods, people speaking their language and eating their food. Ways of living together in a city in which many stay because things are worse at home. The most exclusive city has a corner for everyone. A series of mysteries comes from this, which are suspiciously invisible. It is hard to understand how are they so hidden in the most photographed city in the world. 

I would like to look into some of them.

 


Miguel Zozaya, Espanha / Spain

Percursos e derivas da não ficção espanhola recente / Directions and drifts of recent Spanish non-fiction cinema

O cinema documental espanhol passou por uma evolução e transformação radical nos  últimos 20 anos. Após uma longa temporada de seca, o início do novo século viu um certo modelo de “documentário criativo” florescer em Barcelona, premiado e aclamado pela crítica. Em apenas uma década, a mudança foi vertiginosa: os avanços tecnológicos e a evolução que eles trouxeram em todas as áreas - produção, distribuição e exibição, mas também em termos de formatos e estética - traçaram uma imagem muito mais complexa.

O surgimento de festivais especializados e o de novos circuitos de distribuição (de instituições artísticas a plataformas online) permitiram o aparecimento de novas gerações de criadores audiovisuais de formação, origens, bagagem e influências variadas, cujos filmes foram exibidos em importantes festivais internacionais nos últimos anos. .

A possibilidade de desenvolver um projeto de pesquisa enquadrado entre as próximas edições dos festivais Doclisboa e Márgenes é apresenta-e como o contexto ideal para investigar a presença de obras e autores espanhóis. Assim, pretende-se analisar sua evolução recente e reflectir sobre os seus interesses temáticos e formais, as possíveis linhas de filiação com outros trabalhos, autores e escolas da história (próxima e distante) do documentário espanhol, bem como sua permeabilidade a outros modelos estrangeiros; a sua circulação por festivais internacionais (e como eles participam da construção de novos cânones) e as tendências mais representadas neles.

 

Spanish documentary cinema has experienced a radical evolution and transformation in the last 20 years. After a long season of drought, the beginning of the new century saw a certain model of “creative documentary” flourishing in Barcelona, awarded and critically acclaimed. In just a decade, the change was vertiginous: the technological advances and

the evolution that these brought in all orders - production, distribution and exhibition, but also in terms of formats and aesthetics - traced a much more complex picture.

The creation of specialized festivals and the appearance of new distribution circuits (from

artistic institutions to online platforms) allowed the emergence of new generations of audiovisual creators of varied training, origin, baggage and influences, whose films have participated in important international festivals in recent years. The possibility of developing a research project framed between the next editions of the Doclisboa

and Márgenes festivals is presented as an ideal context to investigate the presence of Spanish works and authors. Thus, it is intended to analyze its recent evolution and carry out a reflection on its thematic and formal interests, the possible lines of affiliation with other works, authors and schools in the history (near and far) of the Spanish documentary, as well as its permeability to other foreign models; its as its permeability to other foreign models; its as its permeability to other foreign models; its circulation through international festivals (and how they participate in the construction of new canons) and the most represented trends in them.

 

NOTA DE INTENÇÕES / AUTHOR’S NOTE

O meu interesse pessoal no tópico de pesquisa proposto parte de duas razões, relacionadas ao meu perfil profissional. Por um lado, na minha formação como investigador de cinema e no meu lado de historiador (desenvolvido tanto na minha tese de doutoramento quanto em artigos vários, projetos de pesquisa e intervenções 

em conferências), a minha linha de especialização tem sido principalmente a história do cinema espanhol, no qual o cinema documental é uma parte importante. Por outro lado, o meu interesse particular pelo cinema de não ficção e a minha proximidade com as suas últimas tendências, estão directamente relacionados com o meu trabalho actual como

responsável pela pré-seleção no festival Punto de Vista, festival de documentário no qual participei desde sua primeira edição em 2005, e que fez parte da minha formação  cinematográfica, permitindo-me construir um conhecimento específico sobre o cinema

documental e experimental (com especial foco na recente evolução da não-ficção feita na Espanha). O encontro destas duas linhas de trabalho (investigação e programação) e o cruzamento das duas especialidades (história do cinema espanhol e do cinema de não ficção) encontram-se de maneira orgânica no âmbito dos festivais Doclisboa e Márgenes. Parece-me, pois, o contexto ideal para desenvolver um projeto de pesquisa que reflita sobre os autores e obras de produção de origem espanhola (atendendo às suas relações, seus interesses temáticos e formais, suas possíveis genealogias, seu lugar tanto numa estrutura histórica nacional quanto no mapa actual da não-ficção internacional) e investigar a sua circulação através desses festivais especializados, bem como a função que adquirem, através do seu trabalho de programação (mas também de produção, através de projetos como Arché e MRG//Work) na criação de novos cânones para cinema de não ficção. 

 

My personal interest in the research topic proposed is based on two reasons, related to my professional profile. On the one hand, in my training as a film researcher and my facet as a historian (developed both in my doctoral thesis and in various articles, research projects and conference interventions), my line of specialization has been mainly the History of Spanish cinema, in which documentary cinema has been an important part in some of my researches. 

On the other hand, my particular interest in non-fiction cinema and my proximity to its latest trends is directly related to my current work as responsible for the preselection at Punto de Vista, a documentary film festival I have been attending since its first edition in 2005 and that has been part of my cinematographic training, allowing to build a concrete

knowledge around documentary and experimental cinema (with special attention towards the recent evolution of non-fiction made in Spain). The union of both lines of work research and programming) and the crossing of the two specialties (history of Spanish cinema and non-fiction cinema) are found in an organic way within the framework of the Doclisboa and Márgenes festivals, so it was an ideal context for me to develop a research project that reflects on the authors and works of Spanish production or origin (attending to their relationships, their thematic and formal interests, their possible genealogies, their place both in a national historical framework and in the current map of international non-fiction) and inquire into its circulation through these specialized festivals, as well as the function

they acquire, through their programming work (but also production, through projects such as Arché and MRG//Work) in the creation of new canons for non-fiction cinema.


Pepe Gutiérrez García, México

Miraba caer las gotas iluminadas por los relámpagos, y cada que respiraba suspiraba, y cada vez que pensaba, pensaba en ti / I watched the drops illuminated by the lightning fall, and every time I breathed I sighed, and every time I thought, I thought of you

 

SINOPSE / SYNOPSIS

Ficção e documentário misturam-se na exploração das origens e desenvolvimento do  colonialismo. No século XVII, um marinheiro espanhol atravessa o Oceano Pacífico no galeão Manila. No século XXI, imagens documentais do México, Filipinas e China seguindo a rota descrita pelo galeão há mais de 300 anos. O passado e o presente coexistem através de humanos autómatos, espaços que se tornam figuras e luzes que se extinguem no escuro.

 

Fiction and documentary are mixed exploring the origins and development of colonialism. In the XVII century, a Spanish sailor crosses the Pacific Ocean in the Manila Galleon. In the XXI century, documentary images of Mexico, the Philippines and China following the route that the Galleon followed for more than 300 years. Past and present coexist through automated humans, spaces that become figures and lights that become extinct in the dark.


NOTA DE INTENÇÕES / DIRECTOR’S NOTE

Misturando ficção e documentário estabelece-se uma dialética entre o passado e o presente, na exploração das origens e do desenvolvimento do colonialismo.

Confronto duas viagens, a de Diego de Velázquez no século XVII, no Galeão de Manila (figura-chave do Mercantilismo, alguns autores estabelecem a rota de Manila como o início da Idade Moderna) e a minha própria viagem, seguindo a rota entre o México, Filipinas e China, no século XXI. Parto da absoluta ruptura formal, como um acto de protesto político (contra a forma que domina o audiovisual) e, mais importante ainda, da completa aceitação do aparatus “cinematográfico” - ou seja, tudo o que se faz com uma câmera - como ficção e nada mais do que isso. E é a partir daí que abraço o artifício e o transfiguro. Os meus filmes procuram a sua qualidade poética e não narrativa, já que qualquer imagem ou som são narrativos em si mesmos. Se falarmos em termos literários, o tipo de cinema que procuro é a poesia e não a prosa. Recordando o que proclamavam autores como Jean-Marie Straub e Robert Bresson, resgato a ideia de que as imagens têm que chocar entre si para existirem por si só, como unidades “narrativas” e posteriormente, aos olhos de um espectador atento, trabalhem também como um conjunto imposto por uma montagem de igual natureza. Parto do evidente, mas muitas vezes ignorando que filmar (algo) é um facto essencialmente de choque: o choque entre o objecto filmado e quem o filma.

Mixing fiiction with documentary a dialectic between the past and present is established, exploring the origins and the development of colonialism. I confront two trips, that of Diego De Velázquez in the 17th century in the Manila Galleon (a key figure in mercantilism, some authors establish the Manila route as the beginning of the Modern Age) and my own journey following the route between Mexico, Philippines and China in the 21st century.

I start from the absolute formal rupture raised as an act of political protest (against the forms that prevail over visual media) and, more importantly, of the complete acceptance of the “cinematographic” apparatus - that is, everything that is done with a camera - like fiction and nothing more than that; and it is from there that he embraces artifice and transfigures it.

My films seek to highlight their poetic and non-narrative quality since any image or sound are narrative by themselves. If we talked in literary terms, the type of cinema my movie appeals to is poetic and not prose. Recalling what authors such as Jean-Marie Straub and Robert Bresson preached, I rescue the idea that images have to collide with each other so that they function on their own as “narrative” units and then, in the eyes of an awake viewer, also work as a set imposed by an assembly of the same nature. I start from the obvious but often ignoring, that filming (a subject) is an act of shock essentially: the clash between the filmed and the one who films it.


A partir de: 
16 de Outubro de 2019 to 20 de Novembro de 2019

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