SEMPRE QUE ACORDO - Lara Mesquita

Sempre que acordo - Lara Mesquita
Teatro
Lara Mesquita
Segunda, Novembro 9, 2020 - 23:45

Ao crescer fui confrontada com a (quase) inexistência de mulheres negras empoderadas, no meu circuito sociocultural.
A minha mãe, por ser minha mãe e a minha professora da escola primária foram as únicas referências positivas de mulher negra a que tive acesso.

Inevitavelmente isso toldou a minha visão do mundo, o que acabou por condicionar o entendimento das minhas possibilidades, traindo as minhas ambições.
Com este espectáculo espero poder contribuir para a mudança deste paradigma.

SEMPRE QUE ACORDO é um espectáculo que analisa o racismo estrutural, em Portugal, como factor determinante na construção da identidade de duas mulheres negras portuguesas.
Partindo da biografia das artistas é construída uma narrativa, mais ou menos ficcional, que se passeia entre o passado e o presente e que evidencia alguns pontos-chave da condição particular de ser negra em Portugal. Esses episódios servem de catalisadores para o reconhecimento e compreensão dessa vivência.

Porque me sinto inferior relativamente a quaisquer pessoas brancas? Serei racista? Porque tenho mais amigos brancos que negros? O que significa eu gostar, quando criança, que os meus amigos dissessem que eu era branca? Que poder teve o meu pai sobre a minha mãe, sendo ele um homem branco e ela uma mulher negra? Porque só tive relações amorosas com homens brancos? Ser negro de pele clara é diferente de ser negro de pele escura? Como? Porque só agora sinto necessidade de defender a minha negritude?

Debatermo-nos com interrogações desta natureza, dando corpo à tentativa de resolução das mesmas, serve este espectáculo como ferramenta provocatória do pensamento. Nosso e do público.
A falta de representação, a infância, a desigualdade, a educação, o sofrimento, o silêncio, a negação, o medo, as relações inter-raciais, o fingimento, a herança cultural, os amigos, as nossas mães, o trabalho, a sociedade, Portugal, o mundo, Toni Morrison, Grada Kilomba, bell hooks, os efeitos do colonialismo. A vergonha. E, depois, o orgulho.

Tudo gatilhos. Todas inspirações.

Trata-se, inevitavelmente, de um espectáculo com carácter político, mesmo sem ser essa a sua motivação. Não é possível, contudo, fugir à conotação a partir do momento em que me proponho a levantar questões de carácter histórico e social.
É, no entanto, mais simples que isso. É real.

Antes de ser qualquer outra coisa, sou mulher negra.
Sempre que acordo, pela manhã, tenho de lutar pela minha existência ao impô-la. O (não) privilégio começa nesse lugar; este espectáculo é sobre isso.


Sinopse

Num dispositivo de conferência-performance, duas mulheres negras inventariam o trauma do racismo português.
Perante a consciencialização dessa “condição especial” de existir e depois da investigação dos seus efeitos na construção da identidade dessas mulheres, SEMPRE QUE ACORDO acontece como meio de denúncia de informação “privilegiada”.

Biografia e memória. Análise e interpretação. Partilha.

A palavra [preta] significa infortúnio. Quer dizer desafortunada, malfadada. Significa condenada. Mas eu não sou o significado de um nome que não escolhi.

Desdémona, Toni Morrison


Ficha Técnica e Artística

Criação e texto – Lara Mesquita
Interpretação – Cirila Bossuet e Lara Mesquita
Apoio à dramaturgia – Isabel Costa e Marco Mendonça
Apoio à produção – Matilde Jalles
Comunicação – Sofia Pancada
Vídeo – Joana Niza Braga, Lara Mesquita, Pedro Gancho e Sara P. Mendes

Parcerias